Alberto Sabino - Blog

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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Contrastes. Reflexões. Descobertas.

Hoje passei um Domingo longe da Moda. Como sempre escrevo aqui, sou um cara eclético, que gosta de conhecer a vida, o mundo, as pessoas. Curto o luxo, a sofisticação e a beleza, mas penso na miséria, na simplicidade e no “feio” da vida.

E, afinal, o que é este “feio”? Hoje tive a oportunidade pra refletir sobre isso.

Tenho um Studio na Bela Vista, que alguns dizem ser o East Village de São Paulo, mas não concordo. Este bairro inclui desde cantinas italianas a casinhas charmosas e casas mal tratadas, grafitadas, habitadas com carência. Alguns diriam: “sim, também o East Village”.

Enfim, esta comparação pouco importa para o que vou relatar e só mostra o meu grilo falante viajado buzinando no meu ouvido, querendo fazer pose.

Dizia, então, que me afastei da Moda hoje. Fui para outra realidade. Primeiro uma festa junina de rua que, por estar em SP tinha muita pizza e massa pra vender nas barraquinhas. E um tal de pão de queijo no palito, que li mas não vi nem comi. Resolvi depois almoçar no centro, numa boa Padaria, a Palma de Ouro. Lembrei de Portugal e pedi “Alheiras”.

Resolvi, depois, que queria conhecer o recém reformado Cine Marabá, que agora tem cinco salas e mantém alguns detalhes do original. Saindo, `noite, resolvi atravessar a Ipiranga, perto da Av. São João, e comer kibe no Habib’s. Sou louco por comida árabe. Melhor, sou louco por comida. Ponto. Programa “popular” completo, como tem que ser. Não quero e não posso viver em redoma, até mesmo porque artistas precisam de informação e sentimentos de todos os tipos.

Ao começar a entrar para ir ao Caixa, ouvi uma voz ao meu ouvido, pedindo alguma coisa. Automaticamente não olhei, entrei e fui fazer meu pedido. Fiquei incomodado, no entanto. O que eu fazia, no Centro de São Paulo, domingo à noite, um pouco frio, cheio de mendigos enrolados em finos cobertores baratos e caixas de papelão? Fiquei desconfortável, não queria olhar a rua e estava com fome. E todos aqueles lá fora, bandidos ou não, com certeza com mais fome que eu, como distinguir, como não me envolver,como me proteger?

Procurei um canto pra esperar. Havia pedido uma caixa pra levar e comer em casa. Cheia de kibes e esfihas. Afinal, olhei a rua. Havia um jovem que me olhava, esperando uma resposta, uma ajuda. Coloquei a mão no bolso. Não posso deixar de dar algum dinheiro, pensei. Assim que o fiz, percebi que outros viram e se fixaram em mim. Se desse dinheiro para um, haveria um monte à minha volta. E o perigo? Que perigo eu correria? O que eles fariam com o dinheiro? Desisti e parei de olhar.

Minha caixa ficou pronta, cheia de comida. Olhei pra rua. Ainda havia o jovem e um garoto enrolado num cobertor, me espreitando. O que vem a seguir, foi uma sequência quase sem pensar, por um impulso talvez perigoso, mas do qual não me arrependo. Abri a caixa, coloquei as esfihas no guardanapo, com todo cuidado, como se fossem para um convidado, e levei pra eles. Olhei bem em seus olhos. Não queria que sentissem outra coisa, além do respeito que estava tendo, usando minhas melhores condições . Troca de olhares rápida, mas que me emociona até agora, enquanto escrevo. Um agradecimento simples para um oferecimento simples.

Voltei pra minha caixa árabe, querendo ir embora. Interessante, não tive medo de sair à rua pra chamar um taxi. Talvez perigosamente, eu estava confiante. E olhava, sem pena ou altivez, para alguns que se aproximavam. Os taxis não paravam, provavelmente com medo daqueles que estavam perto de mim. O rapaz a quem ofereci a esfiha veio me perguntar se eu queria que ele me trouxesse um taxi. O mesmo fez o vendedor de cartões de telefone, com sua boina “reggae” colorida, de quem comprei um (quem sabe um dia posso precisar?). O garoto do cobertor, que depois veio me pedir pra comprar uma vitamina, veio me mostrar o copo, pra provar que realmente comprara o refresco e não drogas. Mais algumas cenas, mas não vou lhes tomar o tempo mais.

Quero encerrar, dizendo que o rapaz me trouxe um taxi. Olhei a cara do motorista. Normal Arrisquei-me, é verdade, e tomei o taxi. De alguma maneira não me senti ameaçado, mas protegido. Deu tudo certo.

Sei que não devo repetir isso. Dentro do taxi uma emoção começou a me tomar. Uma vontade de chorar, que era uma mistura de tudo. De tanta coisa, que prefiro nem tentar descrever. Em casa, um pranto solto e emocionado, que deixei fluir.

E uma certeza agora. Preciso ajudar as pessoas. Senti como se fosse um recado, uma mensagem, uma missão.



Um comentário:

Andrea disse...

Lindo, lindo esse texto, tão rico em detalhes, que dá até para visualizar cada cena e sentir junto com vc. cada emoção, o friozinho da noite, o "medo" de uma eminente violência, que vc. em momento algum sentiu, o rosto do garoto que te trouxe a vitamina, para te mostrar, que em momento algum vc. foi sacaneado....vc. é muito especial!
Beijo no seu coração!
Andrea

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